terça-feira, 31 de julho de 2007

Rodando a baiana

Tudo bem que dor e tristeza são ótimos catalizadores para a escrita, mas acordei de ovo virado, como se diz por aqui... e não vou dar mole pra deprê, já basta o frio que tá fazendo, ficar fria por dentro??? aoooonde????? Quero mais é me arder, como diz Zéu Brito: "eu quero ver Soraia queimada.." KKKKKKKK. Hoje estou com Brian, que mesmo pendurado num cruz, canta: "...always look on the bright side of life... tchuru tchurururu..." Acho que Monty Python sempre soube melhor interpretar a natureza irônica e sarcástica de Deus. E como gosto de sarcasmo, não posso me queixar da vida!!! Quanto a mim, e meus problemas existenciais em relação ao outro que não me vê, já tomei uma decisão: quem tem olhos pra ver, que veja, aos cegos só posso dizer: sinto muito!!!!

segunda-feira, 30 de julho de 2007

É melhor não ser


4h da madrugada, it´s raining cats and dogs, e, no meu rosto desfigurado, correm ligeiras as lágrimas que teimam em cair por tudo que o poderia ser e não foi, nem será jamais. Hoje, estou mais uma vez com Caye, e penso que pior não seria que não houvesse nada após a morte, pior, sim, seria ter que viver outra vida igual a esta. Nietzsche diz que devemos viver como se não houvesse nada de que pudessemos nos arrepender e que, caso voltássemos a viver, pudéssemos repetir todas as experiências da vida anterior. Affff... Vem cá, eu mereço????

Mas vamos deixar de auto-piedade, quem busca sarna tem mais é que se coçar, coçar até tirar sangue, até expor a carne viva. Que vá à merda Nietzsche e sua teoria do eterno retorno. Cansei de repetir esse padrão de boazinha, coitadinha, idiotinha, rejeitadinha... Nessa vida, tudo passa e se existe Deus - e eu espero com fé que ele exista - o que passa não volta mais. Eu passarei, ele passarinho... (de asa quebrada, há tanto tempo acostumado a essa condição, que mesmo diante da possibilidade, se recusa a voar).

Não, definitivamente... volto a comiseração e choro às 4 e 15 da madrugada... só mesmo um Rivotril, Olcadil, Lexotan, e penso que seria tão bom não acordar amanhã. Sem chances... não vou ainda, existem dores para que possamos aprender com elas, devo ter aprendido agora, devo sim, espero que sim, pois todas as minhas certezas - intuições - que se transformaram em cinzas nas últimas horas, estão a escorrer pelo ralo e desaguar no mar; ao qual retornarei um dia.

Uma última palavra: "não me venha com piedade, porque piedade não é amor"!!!!

sábado, 28 de julho de 2007

A ponte inexistente entre nós

"Estivemos uma vez tão perto um do outro na vida que nada parecia entravar nossa amizade e nossa fraternidade e que só havia entre nós uma pequena ponte. Exatamente no momento em que tu ias colocar nela o pé, te perguntei: 'Queres atravessar a ponte?' - Mas então não quiseste mais, e como eu te pedia, não respondeste nada. Desde então, montanhas, rios e tudo o que pode separar e tornar estranho se acumulou entre nós e, se quisermos nos reencontrar, já não seria possível. E agora, quando pensas nessa pequena ponte, não sabes o que dizer - soluças espantado."
(Mais uma do cabeção - Nietzsche em A gaia ciência)

Um quase nada

"(...) ela só mela no ralo de gente, ela é linda
mas não tem nome, é comum e é normal!!!" O Rappa



A egolatria nietzschiana anda me fazendo algum mal, lendo-o passei a crer que também em mim havia algo de especial, algo que houvesse a ser dito que merecesse alguma atenção. Doida utopia. Depois dos últimos sucedidos na minha vida, vejo que não passo de um alma mediocre com ilusão de grandeza. Sou pequena, minúscula, um quase nada. Ordinária e comum. Nada, nem a apropriação das palavras alheias, dos verdadeiros gênios, me faria mudar e crescer aos olhos humanos. De que adianta vestir as fantasias de grandes eloqüências e pensamentos? É tudo bijuteiria, enfeites superficiais para esconeder a pequenez do espírito. O brilho que reluz na mente dos gênios, em mim, sequer incide obliquamente.

Vermelho, sexta-feira e tequila

Hoje, que já é amanhã, experimentei mais uma vez o prazer de poder sair com as amigas. Uma rotina que nada tem de tediosa, pelo contrário: choros e risos afloram em confissões, revelações e mútuo compartilhar de experiências.

Hoje, que ainda não é amanhã, saí de vestido vermelho, do jeitinho que gosto, me sentindo protegida pela cor - roupa e cabelo- a rodar pela Bahia de todos os santos, de todos encantos e todos os axés.

Sexta-feira, dia de filme bom, no Cinema do Museu. Lugar alto astral, companhias agradáveis, e, é claro, Edward Norton pra embalar sonhos e fantasias românticas durante a madrugada.

Inconsequente, hoje, saí para beber tequila, que ainda ressona na minha cabeça, adormecendo as dores que nem calam, nem consentem em me abandonar. Mas como diz o famoso poeta baiano, Renato Fechini: "Ô vo bebê pa isquecê meus pobrema, ô vô bebê pa isquecê minhas angústrias..." E tome tequila na cabeça...

Mas, em tudo e por tudo, ainda sobra o riso, sentido e compartilhado, que mesmo as dores são capazes de provocar - eu que o diga (né não Nil???).

Por isso, minhas lindas e queridas amigas: viva a sexta-feira!!!!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Meu lado lunar

Tenho tantos defeitos que enumerá-los seria uma tarefa vã, mesmo porque eles insistem em se multiplicar. Como os dias que passam, os defeitos são somados e acumulados, junto a vestígios de constumes antigos, por demais arraigados. Mas o maior de todos os meus defeitos é este anseio inesgotável pela aquiescência do outro, que obviamente, está relacionada ao medo de ser preterida. Esse anseio por ser desejada, por alguém que me possa ver mesmo dentro da escuridão, além da minha superfície, me paralisa e me consome. Paralisa porque só me enxergo através do outro e me consome porque o outro, constantemente, não me vê. Pergunto-me, sem fim, poderá alguém me amar, apesar de mim????

Sustança cerebral

"O que significa viver?
Viver? - significa: repelir incessantemente aquilo que quer morrer.
Viver? - isso significa: ser cruel e implacável contra tudo o que, em nós, se torna fraco e velho, e não somente em nós.
Viver, isso significaria, portanto: não ter piedade dos morimbundos, dos miseráveis, dos anciãos? Ser assassino sem cessar? - E no entanto o velho Moisés disse: Não matarás."

(Nietzsche (cabeção) em A gaia ciência)



domingo, 22 de julho de 2007

Quem sou eu?


Alguém me perguntou, numa noite ao luar, quem eu era, queria saber porque me escondia por detrás de um sorriso evasivo, quando no meu olhar brilhava uma lágrima escondida. Nessa noite, me refugiei no silêncio. Hoje, ao relembrar dessa noite, pergunto-me porque não respondi a pergunta. Compreendo que é sempre mais fácil esconder a pessoa que somos dos outros, do que nos tornarmos vulneráveis aos seus olhos. Agora que não me podem mais escutar começo por entoar uma musica “Deixa eu te contar mais de mim, quero te mostrar quem sou, sou como o lugar de onde vim, onde tudo começou, esse brilho em meu olhar é do mar, é do mar que trago refletido (...)”.

Não há ninguém para me ouvir, e hoje, me sinto assim, sem rumo, e tendo apenas como certeza e felicidade o vento que beija o meu rosto e a lua que me embala e afaga os cabelos. A lágrima ainda existe.

No fundo é a própria existência que me faz ainda ter uma parte de mim que sonha, é ela que me faz ser ainda a criança. Eu sei que ainda sou inocente e que vivo no meu castelo de sonhos e nuvens de algodão.
E ainda que eu chore, a dor do mundo, desvairadamente, algo bom dentro de mim refulge, uma chama no meio de muitas cinzas persiste. O sonho.

Mas tenho medo, mais que medo, tenho pavor, pavor que me partam de novo o coração e que eu não seja capaz de o agarrar e voltar a colocá-lo no lugar, pavor que me dêem a nuvem para voar e do nada ela já não esteja debaixo dos meus pés, pavor que me olhem como um corpo e esqueçam a minha alma.

Perguntaram-me quem eu era, a resposta está escrita em cada gesto meu, e em cada lágrima que já deixei escorrer pelo meu rosto, talvez não me compreendam. No fundo só quero lembrar-me de uma coisa, as diferenças entre as pessoas, não condenam sentimentos, é a incapacidade de se adaptar e a falta de vontade que faz com que se esfumem no ar.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Mistério


Me deliciando com as palavras de Tassinha em De improviso (http://tassianovaes.blogspot.com/)


"Já fui apegada aos meus sentimentos. Apego no sentido mais literal da palavra. Fui daquelas que diante de uma ligação afeituosa, principalmente quando brotava afeição gratuita, debruçava-me em dedicação banda larga ao ser amado. Vale o mesmo para as causas amadas. A idéia de rompimento me causava pânico. Águas passaram, pontes ruíram. Onde havia amor, passado rancor, brotou vazio e do pedaço de terra seca, com um pouco de água, germinou semente. Fato é: o fim de um relacionamento é tão misterioso quanto o início. O coração tem lá suas razões, banais ou não, reais ou ilusórias. Pra mim sempre foi necessário explicações. Sempre quis entender os meus amores do fim ao princípio. Exatamente nessa ordem porque de início, mesmo quando não vinham flores, sempre sobrava magia capaz de dispensar qualquer teoria. Fui apegada e, paradoxalmente, ainda sou por mais que me esforce em negações em cada linha deste post. Só em tempos de ressentimento consigo cultivar o desdém. O que se é por natureza não muda. Mas só por teimosia repito: fui. E por terapia digo: hoje tenho apego a mim, à minha existência. Não por súbito ataque do ego, mas por estar convicta de que ninguém mais no mundo é capaz de cuidar com afinco e dedicação da nossa alma a não ser nós mesmos. Fora isso, antes que alguém se assuste, resta aqui, dentro de mim, uma fresta no muro das emoções, onde a qualquer momento uma nova paixão pode ser riscada por um rastro de luz... ... ... "mistério sempre há de pintar por aí"."

domingo, 15 de julho de 2007

O eterno retorno



Que esperança há em retornar ao que já se foi?

Existe algo de circular em nossas vidas, e, de repente, nos vemos retornando àquele lugar ao qual juramos nunca mais voltar.

Mas, quando ali chegamos, percebemos que a distância que se impôs entre nós - os momentos de ausência - construiu um tempo de saudade, em que aquilo que nos fez afastar-nos é justamente aquilo que nos faz querer retornar.

É engano pensar que, quando retornamos, retrocedemos. É possível revistar esse lugar e encontrarmos um eu e um outro renovados, e, aos poucos, redescobrir a intermitente sensação de intimidade.

Nesse lugar, podemos ser quem somos. Não há disfarces, as máscaras não são mais necessárias. E a verdade se impõe com elo de ferro, que une, que funde, que mistura.

Há cheiros familiares, o chão que se pisa é firme. E o olhar, que diz de amor, de companheirismo, de futuro, pode ser encontrado, de novo, nesse lugar.

Retornar, não significa retroceder, significa revelar-se onde podemos ser quem somos enfim.

É bom estar de volta a esse lugar, me sentir segura em seus braços, respirar esse ar convencional, e compratilhar a estrada que se abre a partir desse retorno.

Toda escolha é excludente, e quando escolho retornar, excluo os lugares inauditos, fantasiosos e impossíveis que um dia sonhei visitar.

Nesse lugar sou feliz e isso é que importa!!!!!!

terça-feira, 3 de julho de 2007

Amor de plástico e silicone


Nos últimos meses, a vida tem sido estranhamente complexa. O que eu quero num minuto, no outro já não desejo mais. Volúvel, sempre fui, mas dentro dessa minha inconstância geminiana (meu ascendente cada vez mais forte), há algo que permanece latente: o anseio de ser admirada pelo que escrevo, pelo que penso, pelo que digo e ouço.

Nos últimos meses, redescobri o olhar do outro sobre a minha pele branca, a superfície da minha materialidade que se despe de vergonhas e timidez. Mas é sob a pele, que me veste dessa nudez, que reside o EU que deseja ser admirado, amado, possuído.

Nos últimos meses, vi o outro que me deseja na superfície de minha materialidade, porém esse amor de plástico e silicone, já não preenche o oco sem beiras da minha alma.

Há algo de inocente e primitivo naquele que, todas as noites, acaricia os sinais que perpassam meu corpo. Há beleza em sua alma, há um carinho que me transborda de preocupações. Há a incômoda distância, no tempo e no espaço. E há, sobretudo, um não-olhar para aquela que se deseja em carne viva, palavras, pensamentos...


Leio Nietzsche, leio Freud, releio Jung, pois não quero estar mais vazia. E, embora eu saiba que aquilo que me preenche seja intangível, inalcançável, inconcebível, o desejo há. Mesmo diante de tanta negação, o ser que em mim não quer mais calar já não se satisfaz com olhares inventados, com a ficção do outro que alimento cotidianamente.

Nos últimos meses, eu estive com o desejo puro, inocente e transitório. Mas ele passa por mim e não me vê. Ele fala comigo e não me ouve. Ele me escraviza, mas não se doa. Ele quer, eu dou. Porém, quanto mais eu me deixo levar pelo desejo fluido, cambiável, mais não o quero. O desejo me sacia e me esvazia de mim.

E, enfim, os últimos meses têm se tornado os últimos de muitas coisas na minha vida. Morro, constantemente, através das mortes dos meus desejos, que se transubstanciam em desejos, renovados, de profundidade.

E grito: olhe pra mim!!! Estou além da minha pele, não me toque só na superfície, irei negar o desejo, por que o desejo real está aquém daquilo que se pode ver com os olhos de vidro. Sou muito mais que instinto e carne pulsante. O que é primitivo em mim morre facilmente, mas o que penso, sinto, digo e ouço: não!!!!

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Lágrimas e chuva

Há uma música, de James Blunt, intitulada 'Tears and rain', um lindo tema para reminicências...
Lembro-me da adolescência, quando as lágrimas eram tão leves e a dor, que imaginávamos sentir, nada mais era que um suave canto da alma - nada parecido com as dores que hoje derramamos pelas nossas faces.

Nessa época, minha amiga, Déu, costumava dizer: "Ju, já reparou? Toda vez que você chora, toda vez que você está triste, chove!!!". E num era que acontecia?

Hoje o céu está desabando. Perguntam-me: "você está triste?"...que dizer dessa tristeza calma e serena, que não dói nem fere a carne? Certamente, exultante não estou. Mas há algo que paira sobre a tristeza, algo indecifrável, que me deixa aérea, sonhadora, leve...

E então, ouço a música a me dizer sobre aquilo que gostaria de ter dito, entendido, antes... muito antes: "Como eu desejo que eu pudesse render minha alma; livrar-me das roupas que se tornaram minha pele; vejo o mentiroso que queima dentro de meu precisar. Como desejo que tivesse escolhido escuridão ao frio. Como desejo que tivesse gritado forte. Acho que é tempo de correr para muito, muito longe; encontrar consolo na dor. Todos os prazeres são a mesma coisa: só me mantêm longe dos problemas. Escondem minha forma verdadeira, como Dorian Gray. (...) São mais do que só palavras: são só lágrimas e chuva. Como desejo que pudesse andar pelas portas da minha mente; ter a memória à mão, a ajudar-me a entender os anos. Como desejo que pudesse escolher entre o Céu e o Inferno. Como desejo que eu salvasse minha alma. São mais do que só palavras: são só lágrimas e chuva."
Se o texto tivesse sido escrito por mim, talvez as mesmas referencialidades pudessem ser construídas. O céu e o inferno de Dante, onde me refugio nas tardes de chuva... o retrato de Narciso feito por Oscar Wilde, a busca desesperada pelo conhecimento, e ao mesmo tempo o desejo de fuga incessante...

Continua chovendo, a dor não está, ela é. Mas a convivência tem sido pacífica, sobretudo por que descobri que posso derramá-la não só pelas faces, mas, principalmente, através das palavras, que ouso, confusa e secretamente, despejar sobre o vácuo dessa não-existência virtual.

Ando pelas portas da minha mente, não todas, só algumas delas, e me miro no espelho de Alice, e escolho atravessar os espelhos, derrubar as portas trancadas, e deixar que tudo, absolutamente tudo, possa fluir... como lágrimas e chuva.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Princesas


“(...) dizem que as princesas são tão sensíveis que quando estão longe de seu reino podem até adoecer e até podem morrer de tristeza.” – Do filme Princesas, de Fernando León

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ela voltaria, minha companheira de jornada: a tristeza. Não é fácil crescer, ser adulta, ser mulher, ser humana, ser sozinha, demasiadamente humana.
Sinto-me incompreendida, e essa dor da incompreensão dói mais nos inocentes. Todos nascemos inocentes, mas alguns de nós aprendem a lidar, com indiferença, com os olhos marejados de lágrimas daqueles que sofrem por serem, simplesmente, aquilo que são.
Sinto muito por não corresponder às expectativas de quem queremos em nossa vida. E eu tenho que fazer o que tenho que fazer. Mas mesmo assim, me dói quando aquilo que eu tenho que fazer me afasta em demasia daquilo que ardentemente almejo.
Paradoxalmente, sei que não posso negar aquilo que sou! Há pessoas vazias demais nesse mundo, e às vezes simplesmente desejo ser uma delas.
Quem me dera ser daqueles que vivem na inconsciência, que tomam uma cervejinha e ouvem um pagode, se sentindo plenamente satisfeitos com suas vidas.
Quando penso no fluxo da minha vida, sinto-me traído ou enganado, como se tivesse sido vítima de uma piada celestial,como se tivesse esgotado minha vida dançando à melodia errada.” (Quando Nietzsche Chorou)
Essa frase me tocou, ontem à noite quando lia o livro que estou amando. Preciso conhecer Nietzsche melhor, e obviamente aprofundar a minha dor... dor de ser consciente da demasiada condição humana em que nos encontramos.
Percebo-me em busca constante dessa dor, pois a consciência é o processo pelo qual tenho de passar, caminho incessantemente em busca de mais consciência e de mais conhecimento, a minha vida é impulsionada por isso. Essa é a meta que justifica a minha existência.
Contudo, desejo precisamente o inverso, o desejo do esquecimento completo, da ausência absoluta de mim. Mas não há dúvidas, minha natureza me impulsiona a isso: sair da luz da inconsciência e penetrar nas trevas do (auto)conhecimento.
Pra Jung “A tarefa do homem é (...) conscientizar-se. Ele não deve persistir em sua inconsciência, nem tampouco permanecer idêntico aos elementos inconscientes de seu ser, assim se esquivando de seu destino, que é o de criar cada vez mais consciência. Tanto quanto podemos discernir, a finalidade única da existência humana é a de avivar uma chama na escuridão do simples ser.” (s/d: 326)
Veja que para Jung a consciência é a luz, e a inconsciência a escuridão. Mas eu me pergunto, terá ele razão?
No filme Princesas, de Fernando Leon – por sinal imperdível – vê-se o discurso super autoconsciente de uma Caye (Caetana) ao dizer que: “Hoje em dia, não creio muito em Deus, nem sou muito religiosa ou qualquer coisa do tipo. A única coisa em que fico pensando, e creio, é que o pior não seria que não existisse nada após a morte, o pior seria que houvesse outra vida, outra vida igual a esta!”
Assim me sinto hoje. Desejante de que essa vida consciente chegue ao seu termo e eu possa enfim ter a paz dos inocentes.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O silêncio

“Mas, se uma verdade individual é tudo que um livro pode encerrar, resta-me aceitar escrever a minha. O livro de minhas memórias? Não; se a memória é verdadeira, ela assim o é enquanto não for fixada, enquanto não for encerrada numa forma. O livro de meus desejos? Também estes só são verdadeiros quando seu impulso atua independente de minha vontade consciente. A única verdade que posso escrever é a do instante que vivo. Talvez o verdadeiro livro seja este diário no qual tento registrar a imagem da mulher na espreguiçadeira, em diferentes horas do dia, assim como a observo com as várias incidências da luz.””
(Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno)


Olho o papel em branco e penso o que me impulsiona a escrever. Antes parecia tão fácil, era só começar e as palavras me saiam à maneira de uma inspiração.Aquele tipo de desejo compulsivo que se realizava sem esforço, sem desilusão.
No entanto, tudo parece tão mais difícil agora, e sempre que começo a escrever algumas linhas, nada me consola, nada me satisfaz, é como se eu tivesse perdido algo que nunca tive. Este meu outro eu obscuro que se origina no nada.
E o que tenho para dizer??? No momento, só tenho a minha vontade de escrever sem conseguir.
Há mais coisas que são ditas em silêncio.
Há momentos em que o silêncio é capaz de nos dizer aquilo que a alma cala.
Em silêncio sou capaz de ouvir os sussurros daqueles que me acompanham translucidamente. Vozes ancestrais.
E nada me parece mais belo que o silêncio. Ah, o silêncio!!!! Nos transporta para dimensões outras de nós mesmos. E flutuando ligeiramente sobre a última melodia, sinto-me ir ao reencontro com a beleza de mim.
As visões de lugares nunca visitados me invadem, e desejo, dentro do silêncio, me transportar para além das quatro paredes do meu quarto, evadir desse desejo de permanecer.
O silêncio é meu amante, e esse amor que ora desperta, reelabora identidades, faz nascer ou renascer coisas boas dentro de nós, e não posso me furtar de dizer que, enquanto vivo esse sentimento que me aproxima infinitamente de quem desejo ser, a despeito da distância do que serei, vejo aflorar o melhor de mim.
No momento, o que mais gosto é desse silêncio abençoado em que me encontro, tendo tempo para refletir e, concomitantemente, escrever, operando a catarse de mim, separando-me definitivamente do eu que um dia fui.
Fui....mas já estou vindo... e essa que transborda pelas beiradas da minha alma, que seja bela, que seja leve, que saiba sorrir, sem medo de ouvir o silêncio.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Permanecer ilude


A tristeza repentina, que, nos últimos meses, havia se tornado minha habitual companheira, parece ter dado um tempo. Eu sei que não demora muito ela volta. Mas sinto-me mais confiante, acreditando mais na minha materialidade, sem medo do que possa acontecer, seja o bem ou seja o mal – que venga, todo pasará!!!!.

Não quero mais viver em guerra com os meus fantasmas. O passado já passou, e devo me perdoar, e me recompensar com o prazer de viver cada dia. Sei que há tempos não me encontrava, não experimentava sentimentos e sensações. Meu espelho estava vazio de mim. Eu estava vazia de mim. Um oco sem beiras – como diz G. Rosa. Me encontrava na sombra de meus erros.

Mas, hoje, depois desse período de dormência, em que minha alma se calou em demasia, vejo que eu precisava sentir- sentir tudo, até mesmo a dor da consciência de sermos quem somos, tão imperfeitos, tão insatisfatórios.

Precisava me perder, para me encontrar... e nesse encontro, em que me vejo, ainda no silêncio, na penumbra, há algo de indefinidamente belo. Algo que me faz sorrir sozinha, falar com as paredes, e definitivamente cantar!!! Cantar alto, gritar ao mundo: “ei!!! Eu existo, ainda estou por aqui”.

Passar pelas ruas e olhar o mar arredio, enquanto vou ou volto para o trabalho. O mar que me abandona, do qual me divorciei há tempos, mas que amo com loucura!

É preciso estar só para entender que posso me sentir sozinha e não sentir a solidão oprimir o meu peito, posso deitar a cabeça no travesseiro e deixar que me venham os sonhos, indeléveis momentos de prazer. Devo me permitir o prazer. E a vida, essa, apesar de tudo, tem se tornado mais leve.

Não tenho cismado com quase nada. E gosto de aproveitar as horas em que estou trabalhando e aprendendo, e saber que posso fazer muitas coisas sozinha.
E hoje desfruto desse prazer: ser eu mesma! Ainda que essa que sou agora, possa não o ser daqui há pouco!!!

De qualquer forma, não vou perder minha mania de falar a verdade, de querer entender algumas coisas e de desistir de entender outras (existem coisas que não estão aí para serem entendidas).

O que mudou minha vida????

Não sei, mudou, porque nada permanece... “permanecer ilude” – repito Otto.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Quando Nietzsche chorou


Ontem, lendo "Quando Nietzsche chorou", de Irvin D. Yalom, me deparei com um diálogo muito interessante entre dois homens, que apesar de serem casados com mulheres ricas e bonitas, já não têm por elas o desejo primevo, aquele que fornece o impulso inicial para uma relação amorosa...achei interessante o trecho da conversa em que Max diz o seguinte ao Dr. Breuer:


"(...) Alguns dias, quando desço a Kirstenstrasse e vejo vinte, trinta prostitutas enfileiradas, fico bastante tentado. Nenhuma delas é mais bonita do que Rachel, muitas têm gonorréia ou sífilis, mas mesmo assim fico tentado. Se eu tivesse certeza de que ninguém me reconheceria, quem sabe? Eu seria capaz! Todos ficam fartos da mesma refeição. Veja bem, Josef, para cada mulher bonita por aí, existe um pobre coitado que está cansado de fodê-la!"

Pobre coitados!!!! KKKKKKKKKKKK Tadinhos deles...

O que eles não sabem, é que nós também enjoamos... risos!!!!

terça-feira, 29 de maio de 2007

Vício é assim


Tem vício bom e vício ruim. Eu tenho vários vícios. Roer unha por exemplo... desde que me entendo por gente, só consegui parar duas vezes. Tinha também vício de aturgil, mas esse consegui parar depois que começaram os episódios de taquicardia. Fumar, comecei aos 27, ou seja, recentemente, mas fumo que nem caipora, como se diz aqui na Bahia... risos!!!
O problema do vício é quando o prazer que ele fornece é muito maior que a nossa força de vontade para poder parar!!!





sábado, 26 de maio de 2007

Mal estar da Civilização- Freud


"Ora, é muito provável que meu próximo, quando lhe for prescrito que me ame como a si mesmo, responda exatamente como o fiz e me rejeite pelas mesmas razões. Espero que tenha os mesmos fundamentos objetivos para fazê-lo, mas terá a mesma idéia que tenho. Ainda assim, o comportamento dos seres humanos apresenta diferenças que a ética, desprezando o fato de que tais diferenças são determinadas, classifica como ‘boas’ ou ‘más’. Enquanto essas inegáveis diferenças não forem removidas, a obediência às elevadas exigências éticas acarreta prejuízos aos objetivos da civilização, por incentivar o ser mau. [...]

O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lupus. Quem, em face de toda sua experiência da vida e da história, terá a coragem de discutir essa asserção? Via de regra, essa cruel agressividade espera por alguma provocação, ou se coloca a serviço de algum outro intuito, cujo objetivo também poderia ter sido alcançado por medidas mais brandas. Em circunstâncias que lhe são favoráveis, quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação, ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem, a quem a consideração para com sua própria espécie é algo estranho. Quem quer que relembre as atrocidades cometidas durante as imigrações raciais ou as invasões dos hunos, ou pelos povos conhecidos como mongóis sob a chefia de Gengis Khan e Tamerlão, ou na captura de Jerusalém pelos piedosos cruzados, ou mesmo, na verdade, os horrores da recente guerra mundial, quem quer que relembre tais coisas terá de se curvar humildemente ante a verdade dessa opinião.